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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Um Novo Olhar para a Geração de Renda

O tema do trabalho e da geração de renda costuma ser abordado com uma perspectiva de escassez de recursos. A premissa é que comunidades de baixa renda tem poucos recursos para melhorar sua qualidade de vida.

O trabalho que realizo na Tekoha e as iniciativas do Instituto Elos trazem uma nova premissa: existe abundância de recursos na comunidade, o desafio é criar uma nova economia com modelos de negócios comunitários que gerem prosperidade e criem um fluxo positivo de riquezas.

A geração de renda deve ser um resultado natural ao empregarmos nosso trabalho e conhecimento em atividades demandadas pelas pessoas da nossa comunidade e da sociedade. O fluxo de renda pode estar bloqueado pela falta de um modelo de negócios que disponibilize nossos talentos para um público que precise dos nossos serviços e possa remunerar o trabalho. Muitas vezes, as comunidades empregam seus talentos em produtos e serviços pouco valorizados (serviço doméstico, panos de prato…), mas esses mesmos talentos (servir com qualidade e trabalhos artísticos) podem ser aplicados para produtos mais valorizados (guia de programas de ecopedagogia e brinquedos artesanais de alto padrão). Essas mudanças podem ser realizadas e já estão ocorrendo em várias comunidades.

Estamos realizando um projeto piloto com a comunidade da Juréia para colocar em prática a ideia da Re-evolução, que faz parte da metodologia do Elos. A intenção é desenvolvermos princípios, metodologias e ferramentas que possam ser úteis para outras comunidades criarem um ciclo de prosperidade. O trabalho é estruturado em três eixos: eixo sociocultural, socioambiental e socioeconômico, o desenvolvimento de cada um desses eixos está gerando conhecimento sobre os ativos da comunidade (conhecimento ambiental, técnicas de manejo sustentável, técnicas artesanais, atrativos para programas de ecopedagogia, entre outros).

A partir desses ativos estão sendo criados negócios comunitários como programas de ecopedagogia para escolas e público geral, marcenaria para confecção de brinquedos infantis de alto padrão, comercialização de madeira certificada, espaço para festas e eventos culturais. Esses negócios serão conectados para explorar as sinergias existentes e criar um ecossistema de negócios que nutrem as relações comunitárias, fortalecem a cultura local e preservam os recursos naturais da região.

Uma iniciativa interessante que pode ser somada ao processo da Juréia, citado acima, é o banco comunitário. Esta tecnologia social desenvolvida pelo Banco Palmas no Ceará demonstra, na prática, como as comunidades têm abundância de muitos recursos, mas muitas vezes o sistema econômico não permite que ela os utilize da melhor forma. Assumindo que as comunidades sempre possuem recursos, mas, muitas vezes, eles não permanecem na comunidade, o banco comunitário cria um sistema que incentiva a realização de gastos e investimentos na própria comunidade. A moeda local também fortalece a identidade da comunidade e eleva a autoestima, além dos benefícios econômicos de manter mais recursos dentro da comunidade.

Para trazer essa reflexão para o nosso dia-a-dia é importante avaliarmos onde estamos investindo os nossos recursos e como podemos beneficiar a redistribuição de renda ao comprarmos, viajarmos e investirmos com mais consciência.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Parcerias entre os Setores


Os negócios sociais podem ficar restritos a mais um setor na sociedade ou criar oportunidades mais concretas de parcerias com outros setores para alcançar objetivos que beneficiem a sociedade. Neste blog já comentei sobre a relevância de visualizarmos os negócios sociais como um movimento para reduzir as barreiras entre os setores ao invés da criação de mais um setor.

Hoje pretendo explorar oportunidades de cooperação entre os negócios sociais e os programas sociais do governo. Aqui estou apenas colocando algumas ideias, mas muito mais pode ser desenvolvido a partir da integração dos setores, acredito que as grandes inovações sociais virão justamente dessa mistura de ideias, estruturas e estratégias.

O programa Bolsa Família, por exemplo, embora muito criticado por alguns formadores de opinião, quando analisado mais profundamente verificando diversas pesquisas provou-se bastante efetivo na redução da pobreza, contribuição no investimento em educação e saúde e fomento do desenvolvimento econômico local. A busca atual deve considerar, além da melhoria constante na qualidade e abrangência do programa, mais oportunidades para as pessoas manifestarem seus talentos e participarem do desenvolvimento socioeconômico do país.

Seria possível integrar negócios sociais em estratégias do poder público de promover a inclusão produtiva? O termo inclusão produtiva é o mais comum, mas vejo mais sentido na ideia de criar oportunidades de geração de renda, sejam elas no mercado formal, criando cooperativas, empreendendo negócios ou participando ativamente de organizações da sociedade civil.

Muitos negócios sociais e organizações da sociedade civil têm mostrado grande potencial em contribuir para a inclusão de milhares de pessoas em cadeias produtivas mais justas e sustentáveis. A Tekoha, o ArteSol, a Mundaréu e a Solidarium têm contribuído para a geração de renda em mais de 150 comunidades no Brasil. O Sementes de Paz inclui muitos pequenos produtores numa cadeia de comércio justo de alimentos orgânicos. O Banco Pérola concede crédito a jovens empreendedores em Sorocaba. Essas iniciativas ainda são relativamente pequenas, quando consideramos o número de famílias envolvidas no Bolsa Família (em 2011 deve-se chegar a 13 milhões de famílias), mas outras iniciativas estão emergindo em todo o país.

Com um olhar mais sistêmico podemos identificar várias oportunidades de cooperação entre os negócios sociais e programas sociais. Ao concentrarmos o foco na redução da pobreza e criação de oportunidades de geração e distribuição de riqueza para as pessoas de baixa renda, podemos ir além da separação entre os tipos de organização. As parcerias público-privado ainda foram pouco exploradas e é possível desenvolver essas parcerias não apenas pensando em grandes organizações, mas também em redes de pequenas organizações que contribuem profundamente para o desenvolvimento socioeconômico do país.

Se você conhecer iniciativas de parcerias como essas compartilhe por aqui! Quem quiser conhecer uma organização que está promovendo essas parcerias, visite o site do Instituto Papel Solidário que está fazendo grandes esforços para promover essa integração entre os setores, por exemplo.