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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Inovação Social e Modelos de Negócio Colaborativos

A inovação social pode se dar em organizações da sociedade civil, negócios sociais, no governo ou em empresas. Algumas inovações, no entanto, estão vindo da própria forma de pensar a organização, no seu modelo de governança e na relação entre os seus públicos de interesse.

Ao inovar na governança de uma organização estamos alterando as relações de poder entre os públicos de interesse, provocando o nosso próprio modelo mental de como nos organizamos e nos relacionamos. Esse processo pode ser transformador e nos ajudar a gerar mais impacto social positivo e realizar ações que de fato transformem a sociedade.

No HUB, uma comunidade global de inovadores sociais, que oferece conhecimento, espaço e consultoria em inovação social para indivíduos, organizações e empresas, temos experimentado cocriar novos desenhos de governança nas iniciativas que desenvolvemos com nossos membros.

Em 2010, observamos que havia muito conhecimento na rede do HUB e que ele poderia fluir mais entre os membros da rede. Nesse contexto emergiu a HUB Escola, um negócio colaborativo que convida especialistas a compartilhar sua experiência promovendo inovação social em organizações.

A HUB Escola é cocriada com esses especialistas e o seu modelo de negócios incentiva cada especialista a contribuir com o todo. Isso acontece pois existem incentivos humanos, realizamos atividades conjuntas para integrar o grupo de especialistas, e incentivos econômicos, o cálculo do pagamento de cada especialista depende do número de participantes da sua oficina e do faturamento total da HUB Escola.

Os negócios colaborativos têm um grande poder de mudar nossa relação com o consumo, nosso papel como clientes e os modelos de governança das organizações. Atualmente, as empresas têm olhado mais para esses modelos de negócio como uma nova tendência e oportunidade de mercado. No entanto, essa também é uma oportunidade para as organizações da sociedade civil e os negócios sociais criarem novos sistemas de criação e distribuição de valor.

O importante ao desenhar um negócio colaborativo é assegurar que existam incentivos humanos e econômicos a colaboração. Não é suficiente agregar um grupo de pessoas e falar da importância da colaboração e depois operar como um negócio convencional sem mecanismos de incentivos que favoreçam uma nova forma de pensar e agir.


Para se aprofundar nesse tema recomendo o livro Mesh, de Lisa Gansky e para saber mais das atividades que acontecem na HUB Escola.

Artigo publicado na Folha de São Paulo na coluna Empreendedor Social.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Como os negócios sociais podem contribuir com o desenvolvimento e a erradicação da pobreza no Brasil?



Os negócios sociais buscam em última instância erradicar a pobreza e promover o desenvolvimento. Para buscar esses objetivos é importante primeiramente mapearmos a pobreza e, posteriormente (num próximo post), definirmos desenvolvimento.

A tabela abaixo demonstra que a pobreza está claramente concentrada nas regiões norte e nordeste (ainda mais se medida em relação a população total de cada região). Essa tabela elenca as pessoas com renda per capita de até R$70 (um pouco acima da linha internacional da pobreza que seria US$1.25 ao dia).



Total Pessoas
%
Urbano
Rural

Pessoas
%
Pessoas
%
Brasil
16.267.197
100
8.673.845
53
7.593.352
47
Norte
2.658.452
17
1.158.501
44
1.499.951
56
Nordeste
9.609.803
59
4.560.486
48
5.049.317
52
Sudeste
2.725.532
17
2.144.624
79
580.908
21
Sul
715.961
4
437.346
61
278.615
39
Centro-Oeste
557.449
3
372.888
67
184.561
33
  Fonte: Plano Brasil Sem Miséria

De acordo com estudos que realizamos de negócios sociais na África (principalmente no Quênia) e na Índia, poucos negócios sociais conseguem de fato atingir essa camada mais pobre diretamente. O Kickstart, um negócio social no Quênia (e em outros países do leste Africano), que desenvolve bombas de irrigação para aumentar a produtividade dos pequenos agricultores, não atinge a camada mais pobre da população. Isso não quer dizer que o negócio não contribui para a redução da pobreza, pois ele atinge pessoas muito pobres (mas em sua maioria acima da linha da pobreza internacional) e essas pessoas podem vir a empregar os mais pobres.

Ainda não temos números para avaliar com maior precisão se o mesmo ocorre com os negócios sociais Brasileiros. Para isso, deveria ser feito uma pesquisa junto a essa população mais pobre beneficiada pelos negócios. Pelo que observamos no exterior somado ao mapeamento dos negócios sociais no Brasil, acreditamos que provavelmente a maioria deles deve atingir as pessoas com renda per capita entre R$ 70 e R$ 200. Dificilmente negócios que vendem produtos e serviços (os negócios inclusivos podem atingir um pouco mais essa população) atingem as pessoas abaixo da linha da pobreza, que vivem com menos de R$ 70 hoje, e são 16 milhões de brasileiros.

Esse fenômeno pode se dar por algumas razões. Primeiro, é importante segmentar esta categoria de até 2 salários mínimos, pois este universo compreende muitas diferenças, por exemplo, está nele a população de 16 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza, mas também pessoas com renda per capita de R$200. Além disso, muitas vezes essas pessoas são excluídas dentro de suas próprias comunidades, que já têm uma renda bastante baixa. Na Tekoha trabalhamos com comunidades de baixa renda e observamos que muitas vezes algumas pessoas dentro das comunidades não têm tantas oportunidades como outras e numa análise mais superficial classificaríamos todas elas num mesmo segmento de população de baixa renda.

Outra dificuldade para os negócios sociais atingirem essa população é que ela se concentra nas regiões norte e nordeste (76% da pobreza extrema) e nessas regiões, principalmente no interior, o Brasil possui baixa densidade populacional, muitas vezes, com acesso bastante limitado. Isso impede a criação de modelos de negócios financeiramente viáveis para vender diretamente a essa população e dificulta a participação dessas pessoas em negócios que buscam incluí-las em sua cadeia produtiva. Esse cenário é diferente na Índia, por exemplo, que possui um volume imensamente maior (em torno de 440 milhões enquanto no Brasil são 16 milhões) de pessoas abaixo da linha da pobreza. Numa visita a negócios sociais na Índia, ficou claro que densidade populacional é um critério fundamental para um negócio viabilizar-se financeiramente em sua região. O volume de vendas é muito relevante para a viabilidade econômica do negócio que opera com margens mais baixas para tornar os produtos/serviços mais acessíveis.

Outro desafio é a capacidade dessa população adquirir os produtos ou serviços. A maioria dos negócios visitados na Índia eram muito pragmáticos, tinham consciência que não conseguiam atender a população mais pobre, pois estes não tinham recursos mínimos para participarem do mercado consumidor, mesmo com produtos mais acessíveis. Este desafio tem duas soluções já bem desenvolvidas, ou o negócio social opera com uma precificação de acordo com a capacidade de compra, por exemplo, oferecendo gratuitamente para aqueles que não conseguem adquirir, como é o caso do “Aravind EyeHospitals”. Negócios social que surgiu na Índia oferecendo cirurgias de catarata num processo extremamente inovador. Outro caminho é o caso de alguns bancos de microcrédito na Índia e Bangladesh que têm desenvolvido programas de proteção social em parceria com o governo para trabalhar de forma não lucrativa com essa parcela mais pobre da população (é o caso da BRAC em Bangladesh). Entre outras soluções viáveis que não onerem o negócio social que são e poderiam ser desenvolvidas.

Para erradicar a pobreza acreditamos que o papel das políticas sociais é fundamental e os negócios sociais podem contribuir no processo criando oportunidades para os próximos passos dessas pessoas, que após terem uma renda mínima precisam de oportunidades para crescer, se desenvolverem e colaborarem no desenvolvimento de suas comunidades.

Acreditamos que o mapeamento de negócios sociais/inclusivos foi um excelente passo rumo a compreender este campo no Brasil. Nos próximos estudos seria interessante pesquisarmos mais sobre o público atendido pelos negócios sociais. Dessa forma, poderemos entender melhor o papel dos negócios sociais no processo de redução da pobreza e promoção da justiça social e do desenvolvimento sustentável no país. 

Escrito por Carolina de Andrade (@andradecarol) e Henrique Bussacos (@hbussacos)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

SOCAP Europa


O SOCAP (Social Capital Markets) Europa aconteceu entre os dias 30 de maio e 1 de junho em Amsterdã. A conferência teve seus pontos altos com a apresentação de alguns fundos de investimento de impacto que estão atuando na América Latina (detalhes no próximo post) e a oportunidade de fazer contatos com várias pessoas atuando no setor de negócios sociais no mundo.

O primeiro SOCAP ocorreu nos Estados Unidos em 2008. Em 2009 e 2010 os eventos foram realizados no mesmo país e em 2011 a primeira edição fora dos Estados Unidos ocorreu na Holanda. A intenção do SOCAP é direcionar recursos para gerarem impacto social positivo, portanto eles procuram conectar investidores a fundos e negócios sociais.

Talvez a maior presença tenha sido a ausência de empreendedores. Haviam poucos empreendedores de negócios sociais no evento, provavelmente em função do local e do valor da inscrição. Os empreendedores dos Hubs foram uma exceção já que existe uma parceira entre os organizadores do SOCAP e a rede de Hubs no mundo. Vários atores do mercado de negócios sociais estavam presentes: fundos de venture capital e de financiamento (como a Vox Capital e a Sitawi do Brasil), incubadoras e redes (Unlimited e The Hub) e muitos fundos de investimento de impacto.

Aparentemente existe um volume de recursos financeiros destinados a investimento de impacto muito maior do que negócios sociais que atendam os requisitos desses fundos, como retorno agressivo e alto impacto social. Já para fundos de financiamento, como a Sitawi, que capta recursos como doações e realiza empréstimos para negócios sociais no Brasil, o gargalo é o volume de recursos, pois existem muitos negócios sociais precisando de empréstimos para realizar investimentos.

Durante a conferência fiquei entusiasmado por ver a quantidade de atores interessados em atuar no mercado de negócios sociais, mas muito reticente com relação a real intenção desses novos atores. Acredito que a intenção seja muito relevante, pois existem e existirão escolhas (“trade-offs”) a serem feitas e se a intenção não for promover o desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida, os mecanismos de mercado que deveriam ser ferramentas se tornam o objetivo principal. Um ponto ficou claro, o mercado está crescendo e com isso novos desafios estão emergindo.


Farei mais alguns posts sobre o SOCAP abordando assuntos específicos, como: fundos de financiamento para negócios sociais e mensuração de impacto social.

domingo, 1 de maio de 2011

Governança dos Negócios Sociais


Quando o movimento de negócios sociais começou de forma mais concreta no Brasil em 2006/2007, discutia-se muito os modelos de governança das organizações. Com a dificuldade de viabilizar financeiramente as empresas sociais essa discussão ficou em segundo plano. Uma decisão inteligente, pois não era muito útil colocar vários critérios para reconhecer uma organização como negócio social se ela fosse existir apenas  por um ou dois anos. A Artemisia acompanhou este processo com vários dos empreendimentos apoiados.

No entanto, com a evolução das empresas sociais a governança volta a ser relevante. Um modelo de governança adequado contribui para o negócio não perder o foco no impacto socioambiental. O desafio é que o modelo de governança não depende da vontade de uma ou duas pessoas. A governança é determinada pelas relações de poder entre os públicos de interesse e isso é um processo dinâmico que deve ser pensado e construído desde o início da organização (mesmo não sendo o foco nos primeiros anos). A governança compreende os processos, as políticas e a estrutura de tomada de decisão de uma instituição.

Os modelos disponíveis no mercado para pensar em governança são muito limitados. Mesmo quando buscam envolver mais os outros públicos de interesse, as relações entre eles ainda são presas em paradigmas antigos, como a ideia de que os investidores devem ter mais poder. A Natura é um exemplo de uma empresa que procura criar relações diferenciadas com seus públicos, entretanto pelo tamanho e cultura da organização é muito difícil implementar um modelo mais participativo.

Os negócios sociais têm a oportunidade de criar modelos mais ousados de governança, pois já nascem com um novo DNA ligado a valores de co-criação, colaboração e participação. Mesmo que no início a organização foque em viabilizar sua operação financeiramente é importante começar a desenvolver um modelo de governança, pois isso no futuro pode ser decisivo para a continuação da empresa. Mais uma vez, o desafio dos negócios sociais é criar um paradigma mais equilibrado, que não seja lento e complicado como algumas associações, nem autoritário e desigual como algumas empresas. A equação é desenvolver uma governança participativa com uma gestão ágil, que entregue os resultados socioambientais prometidos.

Definitivamente, não é uma tarefa fácil. Na Tekoha temos tentado construir esse modelo e continuamos com muitos desafios (é bom lembrar que mesmo as organizações com o modelo “padrão” de governança estão com muitos problemas). Atualmente nos organizamos nos seguintes grupos: (i) as comunidades que são os fornecedores da Tekoha (cooperar com essas comunidades é a razão de ser da Tekoha); (ii) os clientes formado por pessoas físicas (varejo) e médias e grandes empresas (atacado); (iii) os colaboradores que operam e gerenciam a organização com autonomia; (iv) os sócios, grupo formado por colaboradores ou ex-colaboradores da organização; (v) o conselho consultivo, formado por experts em áreas relevantes para a Tekoha; e (vi) o conselho dos investidores que têm participação nos resultados de longo prazo da empresa (mas sem poder deliberativo). Desde o início tentamos implementar vários modelos participativos e a maioria falhou, mas continuamos buscando forma inovadoras de fazer a governança e a gestão da organização. Acreditamos que a busca por um modelo novo, já cria uma cultura diferente e mais participativa. Um sonho que temos é envolver algumas comunidades no nosso conselho ou criar um conselho das comunidades. No início isso parecia impensável, mas agora começamos a criar estruturas e parcerias que podem nos ajudar a implementar esse modelo no futuro.

No The Hub Internacional passamos por várias mudanças até chegar em uma estrutura mais participativa. Atualmente existe uma associação formada por todos os Hubs no mundo (20+) que é controladora de uma empresa que atua como “franqueadora” dos Hubs, prestando serviços, criando processos e facilitando a cooperação entre os Hubs. Dessa forma invertemos a lógica e os “franqueados” passaram a ser donos e controlar o “franqueador”. Estou usando estes termos franqueado e franqueador como referência, mas acreditamos que o modelo que estamos criando é novo e com isso novos nomes surgirão no futuro.

Não acredito numa resposta pronta ou um modelo a ser replicado. O desafio é criar modelos de governança e gestão ágeis que potencializem a participação de todos os públicos de interesse e estejam focados na geração de impacto socioambiental positivo.

Você conhece mais modelos de governança em negócios sociais? Compartilhe por aqui nos comentários.

sábado, 12 de março de 2011

Negócios Sociais no Mundo

O programa Mundo SA da Globo News realizou uma matéria recente sobre os negócios sociais no Reino Unido. Realmente os negócios sociais evoluíram bastante no Reino Unido, principalmente em relação a infraestrutura e marco legal. Algumas lições podem ser úteis ao Brasil, mas a realidade brasileira exige não só modelos de negócios diferentes, mas fundamentalmente, negócios sociais que resolvam os desafios socioambientais do país.

Pode-se argumentar que assim como os negócios convencionais foram disseminados como franquias os negócios sociais também podem ser replicados. Isso realmente pode ocorrer com alguns modelos de negócios sociais. Estamos tendo esta experiência com o The Hub que começou em Londres em 2005/6 e hoje está em mais de 20 países. No entanto, o modelo tem sido adaptado para a realidade local e a governança global funciona com um sistema diferente da relação franqueador-franqueado. Muitos negócios sociais questionam as relações de poder entre os públicos de interesse (investidores, gestores, clientes, fornecedores) e isso se reflete na governança do negócio.

Na próxima semana teremos um encontro envolvendo todos os Hubs da rede internacional para discutirmos e aperfeiçoarmos o modelo de governança global, é um processo de aprendizado bastante criativo. Existem poucas referências de redes de negócios sociais no mundo e buscamos construir um modelo que reflita a identidade da organização e ao mesmo tempo seja ágil e eficiente.

Os negócios sociais do Reino Unido, em particular de Londres, podem contribuir bastante para a criação de negócios na área urbana de grandes cidades brasileiras. No entanto, quando pensamos na periferia dos centros urbanos, a Índia pode contribuir com mais ideias e modelos, já que a realidade é mais próxima do Brasil. Da mesma forma o Brasil pode contribuir com suas ideias para inspirar mais negócios sociais em outros países.

Os negócios sociais demonstraram que é possível fazer negócios de uma forma diferente. Agora existe a oportunidade de criar novos modelos de expansão e governança que demonstrem formas alternativas de expandir e co-criar redes de negócios que tenham ganho de escala sem perder a qualidade das relações. Essas relações locais dependem do envolvimento e do poder dos gestores de cada unidade de negócio para alterar regras, customizar os produtos e serviços em função das necessidades e diferenças no contexto em que atua. Em suma estamos falando de um negócio mais democrático, um sistema que redistribui mais o poder entre os públicos de interesse.

Continuarei compartilhando por aqui minhas dúvidas e aprendizados nesse processo e novas ideias são sempre bem vindas!

domingo, 30 de janeiro de 2011

Negócios Sociais e Investidores


Em que fase estão os negócios sociais no Brasil? Qual o perfil de investidores interessados nesses negócios? E qual o perfil de investidor que os negócios sociais realmente precisam neste momento? Embora existam cada vez mais investidores interessados nos negócios sociais, não existem tantas oportunidades concretas de investimento.

Este campo ainda precisa de investidores interessados em fomentar os negócios sociais no país. A busca é por investidores visionários interessados em co-criar organizações capazes de gerar alto impacto social com possibilidades de retorno financeiro. A atração de investidores interessados fundamentalmente no retorno financeiro pode criar problemas em modelos de negócios pouco maduros.

Acredito que uma das mudanças que os negócios sociais podem trazer para os negócios é a transformação das relações de poder entre os públicos de interesse. Se os negócios sociais são criados para servir as pessoas de baixa renda, não deveríamos inverter as relações de poder? As necessidades dessas pessoas tornam-se oportunidades para a criação de organizações capazes de atende-las que por sua vez são oportunidades para investidores. Parece óbvio, mas na maioria das vezes as relações não ocorrem dessa forma. Se os investidores direcionarem os modelos de negócios e esses impuserem uma lógica sobre a comunidade, o impacto social poderá até ocorrer em alguns casos, mas estará sempre em segundo plano.

Considero que o início dos negócios sociais no Brasil se deu em 2006/2007 com modelos de organizações que se posicionaram com mais clareza como uma organização híbrida. Pelo que tenho vivenciado, participando de alguns negócios sociais e conversando com outros empreendedores, acredito que em mais dois ou três anos teremos organizações mais maduras capazes de envolver investimentos maiores com retorno financeiro mais concreto (seja para pagar os investidores ou para reinvestir no negócio e nas comunidades).

A Vox Capital, o Instituto Ventura e a Sitawi criaram três tipos de financiamento diferentes para negócios sociais e estão evoluindo com o desenvolvimento do campo no Brasil. As três organizações trabalham com modelos de investimento que integram retorno financeiro. A única organização que investia sem necessidade de retorno financeiro no Brasil era a Artemisia que agora não realiza mais esses investimentos.

Se existem financiamentos não reembolsáveis para pequenas empresas de tecnologia, por que não oferecer esse tipo de financiamento para negócios sociais? Mesmo em países onde os negócios sociais já estão mais desenvolvidos existem fundos de fomento, como a Fundação Bill e Melida Gates, a Fundação Shell entre outras. Na Inglaterra, por exemplo, o governo tem fundos de investimento não reembolsáveis para negócios sociais, pois esses negócios geram externalidades positivas para a sociedade. Faltam fundações privadas e governamentais interessadas em fomentar o campo de negócios sociais no Brasil, isso poderá levar o campo para um novo patamar. Essas fundações criariam um ‘pipeline’ para a Vox Capital, o Instituto Ventura, a Sitawi, para novos fundos a serem criados e investidores independentes. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Exuberância irracional nos negócios sociais?


Quatro anos atrás lembro de estar numa reunião com a Leila Novak do Instituto Papel Solidário e com o Pablo Handl do The Hub. Estavamos discutindo como poderíamos fazer um contrato social de um negócio social no Brasil, já que não tínhamos referências ainda no país.

Nesses quatro anos o campo vem crescendo e ganhando reconhecimento com um trabalho grande de apoio e disseminação do conceito pela Artemisia e outros apoiadores desse setor no país. Embora acredite profundamente no potencial desses novos negócios na redução da pobreza e na melhoria da qualidade de vida das pessoas, não acredito em uma única solução para os problemas que temos no mundo. E tenho visto muitas vezes os negócios sociais sendo citados como 'a' solução, principalmente por pessoas que estão distantes do dia-a-dia da gestão de um negócio que interage diretamente com a pobreza e das comunidades impactadas pelos negócios.

Os negócios sociais têm demonstrado resultados promovendo a geração de renda e oportunidades para pessoas excluídas. Alguns exemplos são: a Solidarium comercializando produtos artesanais para grandes varejistas, a Gastromotiva capacitando jovens de baixa renda para empreenderem negócios gastronômicos, o Banco Pérola realizando empréstimos para jovens empreendedores em comunidades de baixa renda, a Tekoha comercializando brindes corporativos de comunidades excluídas entre outros. No entanto, existem raros exemplos de negócios sociais resolvendo outros problemas sociais não relacionados a geração de renda.

As pessoas e a mídia, que agora está compreendendo melhor o conceito de negócio social, costumam buscar ‘a’ solução para os problemas do mundo. E os negócios sociais trazem uma proposta bastante tentadora: ‘mude o mundo ganhando dinheiro’. No entanto, as pessoas que trabalham nos negócios sociais no Brasil sabem que essa proposta é factível, mas muito desafiadora e longe de estar consolidada. Na Europa e nos Estados Unidos, como o campo de negócios sociais já está mais evoluído, algumas pessoas já apresentam um olhar mais crítico sobre o dogma de que os métodos de mercados podem resolver todos os problemas, inclusive a pobreza. Ainda mais depois de terem passado pela última crise financeira de 2008/09.

Os negócios sociais são uma importante ferramenta para somar aos esforços das organizações da sociedade civil, do governo e dos trabalhos de responsabilidade corporativa das empresas. Eles não são ‘a’ solução, mas sim uma solução inovadora que pode contribuir muito na construção de um mundo melhor.

Este mês escrevi um ‘paper’ sobre a relevância dos negócios sociais para o desenvolvimento social e econômico. Analisando um caso estudado com mais profundidade: a KickStart (organização que comercializa bombas de irrigação para agricultura familiar em países da África). Fica claro que esta organização contribui muito para a redução da pobreza, mas ela não chega até os mais pobres (índice de extrema pobreza definido como 50% da linha da pobreza). Outros casos no Brasil, com menos dados para fazer afirmações, demonstram o mesmo, na maioria das vezes, eles não atingem os indivíduos em pobreza extrema. Isso também ocorre nas microfinanças que visam lucro, como os muito pobres apresentam maior risco, menores empréstimos e menor rentabilidade, as microfinanças que visam um maior retorno sobre seus ativos, costumam focar nos pobres, mas não atingem os muito pobres. Existem exceções como o Grameen Bank e a BRAC em Bangladesh que não visam lucro, mas são negócios sociais e atingem os extremamente pobres.

Se quiser mais detalhes sobre essas análises é só baixar o ‘paper’ em inglês, clicando aqui (após clicar, para fazer o download gratuito - comum - é só aguardar alguns segundos).

domingo, 26 de dezembro de 2010

Várias estratégias de Desenvolvimento


Alternativas de desenvolvimento para a África, a Ásia e a América Latina estão sempre em discussão. Na última década mais alternativas que utilizam as regras de mercado para reduzir a pobreza começaram a emergir e o maior exemplo concreto dessa tendência é o Grameen Bank. No entanto, as pessoas que divulgam e suportam essa estratégia de criar negócios sociais para reduzir pobreza, muitas vezes têm pouco conhecimento sobre desenvolvimento. As críticas a respeito da ajuda internacional, na maioria das vezes, são genéricas e pouco fundamentadas.

Projetos financiados pela ajuda internacional são diversos, assim como os negócios sociais, alguns são muito eficientes, outros apresentam péssimos resultados. Portanto, para a ideia de negócios sociais contribuir para o desenvolvimento é importante que ela complemente aqueles projetos que são eficientes e que os projetos que não apresentam resultados deixem de desperdiçar dinheiro público. Para isso é necessário que avaliações menos genéricas e mais detalhadas sejam realizadas.
 

Os negócios sociais têm demonstrado um grande potencial par reduzir a pobreza, mas a maioria dos exemplos de negócios sociais bem sucedidos apresentam muitas limitações para reduzir a pobreza extrema. Organizações que perceberam isso como a BRAC em Bangladesh adotaram estratégias por meio de modelos de doação para conseguir trabalhar com as pessoas em pobreza extrema, já que o modelo de negócio social deles não conseguia atender essa população.


Uma qualidade muito especial dos negócios sociais é a capacidade de olhar para o pobreza e ver oportunidades de geração de riqueza, reconhecer que todas as pessoas têm potencial se tiverem oportunidade para expressá-lo. Essa qualidade deve ser transmitida para as outras estratégias de desenvolvimento e ela talvez seja mais importante do que os modelos de negócio em si, pois ela transforma um paradigma nos modelos de desenvolvimento.

Embora eu tenha iniciado negócios sociais e acredite muito no potencial desses negócios para mudarem o mundo, tenho consciência de que nenhum caminho é O único caminho certo. Reconheço as limitações dos negócios sociais. É por isso que precisamos de várias organizações e estratégias diferentes para conseguir erradicar a pobreza e programas de transferência de renda, ONGs que apoiam a educação infantil e negócios sociais, podem e devem trabalhar juntos.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O que você faz de verdade?

[CONTRIBUICAO DA FLAVIA CERRUTI - A Flavia é uma amiga que trabalha na Tekoha e gostaria de compartilhar uma reflexao com todos.]

A cada dia fica mais evidente que carreira profissional e vida pessoal são dois aspectos fundamentais na nossa existência e não podem ser elaborados separadamente. A felicidade e bem-estar de uma pessoa dependem em grande grau da sua ocupação, bem como a mesma é resultado do seu histórico, crenças e escolhas.

No contexto das atuais metrópoles, estamos tão profundamente ligados a nossa profissão que a tomamos como referência: “sou psicólogo, médico, músico; trabalho numa empresa, ONG, banco, etc.” Não se trata apenas de uma apresentação profissional; socialmente, em diversas ocasiões informais, é normal o interesse pelo “o que você faz”.

No entanto, tornou-se tão natural e necessário trabalhar que as pessoas tendem a não refletir sobre o resultado final do seu trabalho. Além do salário e da possibilidade de se sentir pessoalmente realizado, qual a utilidade do seu trabalho?

Passamos a maior parte das nossas vidas trabalhando e toda esta dedicação serve para quê? E para quem? Independente da área de atuação ou nível hierárquico, o que você devolve para sociedade por meio do trabalho? Por que escolheu esta ocupação e não outra? Que diferença faria se você não estivesse no seu trabalho no longo prazo? O que deixaria de acontecer?

Essas perguntas profundas são importantes, pois no dia-a-dia tendemos a ser superficiais...Os negócios sociais são uma tentativa de trazer significado ao trabalho, mas se também for praticado de maneira incosciente ele não mudará nada.

[CONTRIBUICAO DA FLAVIA CERRUTI]

domingo, 19 de dezembro de 2010

A mídia e os negócios sociais


Os negócios sociais são um fenômeno recente no Brasil. A ideia de um setor 2,5 ou de organizações híbridas, que são algo entre os negócios tradicionais e as organizações da sociedade civil começou a tomar forma em 2006 e 2007.

Em 2009 e neste ano a mídia começou a divulgar mais essas iniciativas. No final de 2009, a revista Pequenas Empresas Grandes Negócios fez uma extensa matéria sobre negócios sociais http://alturl.com/jasn5. Outros veículos de comunicação também tentaram fazer matérias sobre negócios sociais. Na Tekoha demos uma entrevista para a Folha de São Paulo, mas a edição da entrevista não passou a ideia central dos negócios sociais de que são organizações com uma missão social e que vêm no modelo de negócio lucrativo a melhor forma de atingir essa missão. Muitos confundem os negócios sociais com a ideia de sustentabilidade nos negócios. Ao meu ver a diferença é que os negócios sociais são criados para resolver um problema social e ambiental e o modelo de negócio lucrativo é apenas a forma encontrada para atingir o objetivo socio-ambiental.

A revista Results On por ser uma publicação mais jovem e focada em empreendedorismo vem acompanhando esse movimento de negócios sociais mais de perto e já publicou algumas reportagens como essa http://alturl.com/6qwm8. Mesmo alguns veículos mais focados no setor empresarial e nas grandes empresas como a Época Negócios, já publicaram matérias sobre negócios sociais, como essa matéria sobre o The Hub http://alturl.com/7ag27.  

Essa semana a Revista Época fez uma matéria sobre a Tekoha (http://alturl.com/4xqif - é preciso ser assinante para acessar), que utilizando a internet, conecta comunidades e consumidores, mas do que isso a ideia central da Tekoha é criar um mercado que inclua as comunidades de forma mais estratégica e que elas possam gerar renda a partir dos seus saberes. É importante que assim como esses jornalistas entenderam o conceito de negócios sociais, mais pessoas da mídia compreendam e disseminem a ideia.

Para os negócios sociais se consolidarem como uma alternativa, uma opção de capitalismo mais inclusivo, humano e sustentável é importante que continuemos divulgando a ideia e aprimorando os negócios que não estão prontos, não temos a resposta, mas estamos num caminho interessante. A única certeza que temos é que o modelo atual não faz sentido. Afinal, qual o significado de levantar todos os dias para aumentar o retorno do acionista da sua empresa? Ou mesmo seu próprio salário? E ao mesmo tempo ter que conviver com problemas sociais e ambientais.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ampliação do Setor de Negócios Sociais


Neste blog já comentei um pouco sobre as vantagens e desvantagens dos negócios sociais se tornarem mais um setor ou derrubar as barreiras entre os setores.

Neste fim de semana participei de uma conferência sobre negócios sociais em Oxford (www.theemergeconference.org). Na Inglaterra, o setor de negócios sociais está bastante desenvolvido e tem se tornado parte de muitas discussões no mundo dos negócios e na prestação de serviços sociais no governo.

O que está ocorrendo aqui na Inglaterra pode ser interessante para ser aplicado no Brasil em relação as políticas públicas criadas para incentivar os negócios sociais. No entanto, também é importante atentar para os problemas que estão tendo na Inglaterra ao tentar substituir o governo por empresas sociais. Para manter a viabilidade financeira, muitos modelos de negócios sociais não conseguem atuar com os ‘muito pobres’ e acaba atendendo apenas os ‘pobres’, portanto vários serviços sociais precisam continuar sendo executados pelo governo.

Os negócios sociais devem complementar o que já está sendo feito de positivo pelo governo, pelos negócios e pela sociedade civil. A intenção, ao meu ver, não deve ser substituir estes setores e sim contribuir em áreas onde esses setores são pouco eficientes ou não conseguem atuar.

Esta conferência também foi interessante para ver que o Brasil está avançando bastante na criação do campo de negócios sociais, principalmente em função da Artemisia e dos negócios sociais que junto com a Tekoha foram os pioneiros neste setor no país. Continuo vendo um grande potencial nos negócios sociais para contribuírem com a redução da pobreza, mas é importante ver que alguns modelos de negócios sociais sempre deixarão pessoas ‘de fora’ e que elas precisam ser incluídas com políticas públicas e atuação de outras organizações sociais.