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domingo, 1 de maio de 2011

Governança dos Negócios Sociais


Quando o movimento de negócios sociais começou de forma mais concreta no Brasil em 2006/2007, discutia-se muito os modelos de governança das organizações. Com a dificuldade de viabilizar financeiramente as empresas sociais essa discussão ficou em segundo plano. Uma decisão inteligente, pois não era muito útil colocar vários critérios para reconhecer uma organização como negócio social se ela fosse existir apenas  por um ou dois anos. A Artemisia acompanhou este processo com vários dos empreendimentos apoiados.

No entanto, com a evolução das empresas sociais a governança volta a ser relevante. Um modelo de governança adequado contribui para o negócio não perder o foco no impacto socioambiental. O desafio é que o modelo de governança não depende da vontade de uma ou duas pessoas. A governança é determinada pelas relações de poder entre os públicos de interesse e isso é um processo dinâmico que deve ser pensado e construído desde o início da organização (mesmo não sendo o foco nos primeiros anos). A governança compreende os processos, as políticas e a estrutura de tomada de decisão de uma instituição.

Os modelos disponíveis no mercado para pensar em governança são muito limitados. Mesmo quando buscam envolver mais os outros públicos de interesse, as relações entre eles ainda são presas em paradigmas antigos, como a ideia de que os investidores devem ter mais poder. A Natura é um exemplo de uma empresa que procura criar relações diferenciadas com seus públicos, entretanto pelo tamanho e cultura da organização é muito difícil implementar um modelo mais participativo.

Os negócios sociais têm a oportunidade de criar modelos mais ousados de governança, pois já nascem com um novo DNA ligado a valores de co-criação, colaboração e participação. Mesmo que no início a organização foque em viabilizar sua operação financeiramente é importante começar a desenvolver um modelo de governança, pois isso no futuro pode ser decisivo para a continuação da empresa. Mais uma vez, o desafio dos negócios sociais é criar um paradigma mais equilibrado, que não seja lento e complicado como algumas associações, nem autoritário e desigual como algumas empresas. A equação é desenvolver uma governança participativa com uma gestão ágil, que entregue os resultados socioambientais prometidos.

Definitivamente, não é uma tarefa fácil. Na Tekoha temos tentado construir esse modelo e continuamos com muitos desafios (é bom lembrar que mesmo as organizações com o modelo “padrão” de governança estão com muitos problemas). Atualmente nos organizamos nos seguintes grupos: (i) as comunidades que são os fornecedores da Tekoha (cooperar com essas comunidades é a razão de ser da Tekoha); (ii) os clientes formado por pessoas físicas (varejo) e médias e grandes empresas (atacado); (iii) os colaboradores que operam e gerenciam a organização com autonomia; (iv) os sócios, grupo formado por colaboradores ou ex-colaboradores da organização; (v) o conselho consultivo, formado por experts em áreas relevantes para a Tekoha; e (vi) o conselho dos investidores que têm participação nos resultados de longo prazo da empresa (mas sem poder deliberativo). Desde o início tentamos implementar vários modelos participativos e a maioria falhou, mas continuamos buscando forma inovadoras de fazer a governança e a gestão da organização. Acreditamos que a busca por um modelo novo, já cria uma cultura diferente e mais participativa. Um sonho que temos é envolver algumas comunidades no nosso conselho ou criar um conselho das comunidades. No início isso parecia impensável, mas agora começamos a criar estruturas e parcerias que podem nos ajudar a implementar esse modelo no futuro.

No The Hub Internacional passamos por várias mudanças até chegar em uma estrutura mais participativa. Atualmente existe uma associação formada por todos os Hubs no mundo (20+) que é controladora de uma empresa que atua como “franqueadora” dos Hubs, prestando serviços, criando processos e facilitando a cooperação entre os Hubs. Dessa forma invertemos a lógica e os “franqueados” passaram a ser donos e controlar o “franqueador”. Estou usando estes termos franqueado e franqueador como referência, mas acreditamos que o modelo que estamos criando é novo e com isso novos nomes surgirão no futuro.

Não acredito numa resposta pronta ou um modelo a ser replicado. O desafio é criar modelos de governança e gestão ágeis que potencializem a participação de todos os públicos de interesse e estejam focados na geração de impacto socioambiental positivo.

Você conhece mais modelos de governança em negócios sociais? Compartilhe por aqui nos comentários.

sábado, 12 de março de 2011

Negócios Sociais no Mundo

O programa Mundo SA da Globo News realizou uma matéria recente sobre os negócios sociais no Reino Unido. Realmente os negócios sociais evoluíram bastante no Reino Unido, principalmente em relação a infraestrutura e marco legal. Algumas lições podem ser úteis ao Brasil, mas a realidade brasileira exige não só modelos de negócios diferentes, mas fundamentalmente, negócios sociais que resolvam os desafios socioambientais do país.

Pode-se argumentar que assim como os negócios convencionais foram disseminados como franquias os negócios sociais também podem ser replicados. Isso realmente pode ocorrer com alguns modelos de negócios sociais. Estamos tendo esta experiência com o The Hub que começou em Londres em 2005/6 e hoje está em mais de 20 países. No entanto, o modelo tem sido adaptado para a realidade local e a governança global funciona com um sistema diferente da relação franqueador-franqueado. Muitos negócios sociais questionam as relações de poder entre os públicos de interesse (investidores, gestores, clientes, fornecedores) e isso se reflete na governança do negócio.

Na próxima semana teremos um encontro envolvendo todos os Hubs da rede internacional para discutirmos e aperfeiçoarmos o modelo de governança global, é um processo de aprendizado bastante criativo. Existem poucas referências de redes de negócios sociais no mundo e buscamos construir um modelo que reflita a identidade da organização e ao mesmo tempo seja ágil e eficiente.

Os negócios sociais do Reino Unido, em particular de Londres, podem contribuir bastante para a criação de negócios na área urbana de grandes cidades brasileiras. No entanto, quando pensamos na periferia dos centros urbanos, a Índia pode contribuir com mais ideias e modelos, já que a realidade é mais próxima do Brasil. Da mesma forma o Brasil pode contribuir com suas ideias para inspirar mais negócios sociais em outros países.

Os negócios sociais demonstraram que é possível fazer negócios de uma forma diferente. Agora existe a oportunidade de criar novos modelos de expansão e governança que demonstrem formas alternativas de expandir e co-criar redes de negócios que tenham ganho de escala sem perder a qualidade das relações. Essas relações locais dependem do envolvimento e do poder dos gestores de cada unidade de negócio para alterar regras, customizar os produtos e serviços em função das necessidades e diferenças no contexto em que atua. Em suma estamos falando de um negócio mais democrático, um sistema que redistribui mais o poder entre os públicos de interesse.

Continuarei compartilhando por aqui minhas dúvidas e aprendizados nesse processo e novas ideias são sempre bem vindas!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Parcerias entre os Setores


Os negócios sociais podem ficar restritos a mais um setor na sociedade ou criar oportunidades mais concretas de parcerias com outros setores para alcançar objetivos que beneficiem a sociedade. Neste blog já comentei sobre a relevância de visualizarmos os negócios sociais como um movimento para reduzir as barreiras entre os setores ao invés da criação de mais um setor.

Hoje pretendo explorar oportunidades de cooperação entre os negócios sociais e os programas sociais do governo. Aqui estou apenas colocando algumas ideias, mas muito mais pode ser desenvolvido a partir da integração dos setores, acredito que as grandes inovações sociais virão justamente dessa mistura de ideias, estruturas e estratégias.

O programa Bolsa Família, por exemplo, embora muito criticado por alguns formadores de opinião, quando analisado mais profundamente verificando diversas pesquisas provou-se bastante efetivo na redução da pobreza, contribuição no investimento em educação e saúde e fomento do desenvolvimento econômico local. A busca atual deve considerar, além da melhoria constante na qualidade e abrangência do programa, mais oportunidades para as pessoas manifestarem seus talentos e participarem do desenvolvimento socioeconômico do país.

Seria possível integrar negócios sociais em estratégias do poder público de promover a inclusão produtiva? O termo inclusão produtiva é o mais comum, mas vejo mais sentido na ideia de criar oportunidades de geração de renda, sejam elas no mercado formal, criando cooperativas, empreendendo negócios ou participando ativamente de organizações da sociedade civil.

Muitos negócios sociais e organizações da sociedade civil têm mostrado grande potencial em contribuir para a inclusão de milhares de pessoas em cadeias produtivas mais justas e sustentáveis. A Tekoha, o ArteSol, a Mundaréu e a Solidarium têm contribuído para a geração de renda em mais de 150 comunidades no Brasil. O Sementes de Paz inclui muitos pequenos produtores numa cadeia de comércio justo de alimentos orgânicos. O Banco Pérola concede crédito a jovens empreendedores em Sorocaba. Essas iniciativas ainda são relativamente pequenas, quando consideramos o número de famílias envolvidas no Bolsa Família (em 2011 deve-se chegar a 13 milhões de famílias), mas outras iniciativas estão emergindo em todo o país.

Com um olhar mais sistêmico podemos identificar várias oportunidades de cooperação entre os negócios sociais e programas sociais. Ao concentrarmos o foco na redução da pobreza e criação de oportunidades de geração e distribuição de riqueza para as pessoas de baixa renda, podemos ir além da separação entre os tipos de organização. As parcerias público-privado ainda foram pouco exploradas e é possível desenvolver essas parcerias não apenas pensando em grandes organizações, mas também em redes de pequenas organizações que contribuem profundamente para o desenvolvimento socioeconômico do país.

Se você conhecer iniciativas de parcerias como essas compartilhe por aqui! Quem quiser conhecer uma organização que está promovendo essas parcerias, visite o site do Instituto Papel Solidário que está fazendo grandes esforços para promover essa integração entre os setores, por exemplo.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Como se envolver com um Negócio Social?


Muitas pessoas têm se interessado pela ideia de negócios sociais. Alguns veem neste movimento um ‘caminho do meio’ entre o segundo e o terceiro setor. Outros acreditam que só dessa forma conseguirão se realizar e gerar um impacto profundo na sociedade, pois o modelo integra os aspectos socioambientais a um modelo economicamente viável. E algumas pessoas são mais céticas ou não entendem muito bem qual é a diferença de um negócio social em relação a um negócio ou a uma organização da sociedade civil.

Estas percepções variadas vão gerar diferentes interações com os negócios sociais. Existem aqueles que decidirão ‘mergulhar de cabeça’ nessa ideia e de fato empreender ou trabalhar num negócio social. Outros procurarão saber mais e interagir com esses novos modelos de negócios. E alguns criticarão a ideia de integrar os aspectos socioambientais a viabilidade econômica, considerando-os incompatíveis.

Com a maior visibilidade do campo no Brasil, agora o objetivo é envolver mais gente nessa rede. Precisamos de mais pessoas trabalhando nos negócios sociais não só em novos modelos, mas também contribuindo para os modelos que já existem. Neste link é possível identificar algumas oportunidades para isso: http://dretrivelli.wordpress.com/oportunidades-para-praticar/, dentre elas uma oportunidade na Tekoha. Também buscamos mais pessoas interessadas em pesquisar, investir, divulgar, questionar e se tornarem clientes de negócios sociais.

Acredito que a melhor forma de começar algo é sempre fazer e experimentar. Antes de criar teorias em torno do que é certo e errado nos negócios sociais ou buscar respostas para os desafios que o campo enfrenta no Brasil e no mundo, passar um dia com um time que esteja empreendendo um negócio social, ajudar num projeto específico ou mesmo trabalhar integralmente para o negócio é a melhor forma de compreender o que existe de novo nessas organizações e os desafios que elas enfrentam no dia-a-dia.

Atualmente, já existem vários tipos de organizações diferentes que apresentam oportunidades para diversos perfis: organizações que trabalham com geração de renda, como a Tekoha; com fundo de investimentos, como o Instituto Ventura, a Vox Capital e a Sitawi; com financiamento para educação, como a Savanza; com colaboração, como o The Hub, que além de São Paulo está começando em Belo Horizonte e Curitiba; com apoio técnico, como a Artemisia e a Quintessa; com cultura, como A Banca e a Feira Preta; com turismo, como a Aoka; com serviços ambientais, alimentos orgânicos, gastronomia, como a Gastromotiva, a Sementes de Paz e a Ecossistemas...Entre muitos outros negócios. Para conhecer mais exemplos visite o site da Artemisia e para se entusiasmar e começar já, veja os primeiros passos da turma do Hub Belo Horizonte, fazendo acontecer!



domingo, 30 de janeiro de 2011

Negócios Sociais e Investidores


Em que fase estão os negócios sociais no Brasil? Qual o perfil de investidores interessados nesses negócios? E qual o perfil de investidor que os negócios sociais realmente precisam neste momento? Embora existam cada vez mais investidores interessados nos negócios sociais, não existem tantas oportunidades concretas de investimento.

Este campo ainda precisa de investidores interessados em fomentar os negócios sociais no país. A busca é por investidores visionários interessados em co-criar organizações capazes de gerar alto impacto social com possibilidades de retorno financeiro. A atração de investidores interessados fundamentalmente no retorno financeiro pode criar problemas em modelos de negócios pouco maduros.

Acredito que uma das mudanças que os negócios sociais podem trazer para os negócios é a transformação das relações de poder entre os públicos de interesse. Se os negócios sociais são criados para servir as pessoas de baixa renda, não deveríamos inverter as relações de poder? As necessidades dessas pessoas tornam-se oportunidades para a criação de organizações capazes de atende-las que por sua vez são oportunidades para investidores. Parece óbvio, mas na maioria das vezes as relações não ocorrem dessa forma. Se os investidores direcionarem os modelos de negócios e esses impuserem uma lógica sobre a comunidade, o impacto social poderá até ocorrer em alguns casos, mas estará sempre em segundo plano.

Considero que o início dos negócios sociais no Brasil se deu em 2006/2007 com modelos de organizações que se posicionaram com mais clareza como uma organização híbrida. Pelo que tenho vivenciado, participando de alguns negócios sociais e conversando com outros empreendedores, acredito que em mais dois ou três anos teremos organizações mais maduras capazes de envolver investimentos maiores com retorno financeiro mais concreto (seja para pagar os investidores ou para reinvestir no negócio e nas comunidades).

A Vox Capital, o Instituto Ventura e a Sitawi criaram três tipos de financiamento diferentes para negócios sociais e estão evoluindo com o desenvolvimento do campo no Brasil. As três organizações trabalham com modelos de investimento que integram retorno financeiro. A única organização que investia sem necessidade de retorno financeiro no Brasil era a Artemisia que agora não realiza mais esses investimentos.

Se existem financiamentos não reembolsáveis para pequenas empresas de tecnologia, por que não oferecer esse tipo de financiamento para negócios sociais? Mesmo em países onde os negócios sociais já estão mais desenvolvidos existem fundos de fomento, como a Fundação Bill e Melida Gates, a Fundação Shell entre outras. Na Inglaterra, por exemplo, o governo tem fundos de investimento não reembolsáveis para negócios sociais, pois esses negócios geram externalidades positivas para a sociedade. Faltam fundações privadas e governamentais interessadas em fomentar o campo de negócios sociais no Brasil, isso poderá levar o campo para um novo patamar. Essas fundações criariam um ‘pipeline’ para a Vox Capital, o Instituto Ventura, a Sitawi, para novos fundos a serem criados e investidores independentes. 

domingo, 23 de janeiro de 2011

Valor Compartilhado: moda empresarial ou mudança profunda no propósito das empresas?


O mundo empresarial está começando a olhar com mais seriedade para os negócios sociais. Depois dos trabalhos pioneiros do Stuart Hart até o Michael Porter está escrevendo sobre valor compartilhado (artigo da Harvard Business Review - http://www.hbrbr.com.br/index.php?codid=368 ). No entanto, a forma de conceituar esta nova onda de inovação ainda conserva alguns vícios empresariais.

A relevância de criar conceitos e publicar artigos em revistas reconhecidas no meio empresarial é indiscutível. Contudo é fundamental que esses novos conceitos sejam fruto de um novo modelo mental e de uma intenção genuína de compartilhar valor com a sociedade. Se o compartilhamento de valor for apenas uma estratégia e não fizer parte do propósito das organizações, não alcançaremos uma transformação profunda e necessária.

Os negócios sociais têm como estratégia e propósito a geração de valor compartilhado. Eles buscam construir junto e redistribuir este valor na cadeia. Ao adotar apenas a estratégia de construir junto, mas continuar oferecendo as maiores fatias da geração de valor para os investidores e/ou executivos das organizações, não alteraremos os níveis de desigualdade atuais.

A discussão sobre distribuir ou não os lucros neste contexto é menos relevante. A principal questão é: qual o propósito do negócio? E como o valor gerado será distribuído entre os públicos de interesse da organização? Se o propósito da organização é reduzir a pobreza e a intenção é fazer uma distribuição de valor que reduza a desigualdade, é bastante estranho que os negócios sociais mantenham o mesmo modelo de distribuição de lucros exclusivamente para os investidores como os negócios tradicionais. As necessidades da sociedade devem guiar este processo e estas escolhas e não o modelo antigo de fazer negócios ou o fato de investidores tentarem aumentar a sua fatia, exigindo cada vez retornos mais altos. Os investidores precisam ser incluídos na organização e estarem alinhados ao propósito do negócio para não ocorrerem conflitos de interesse.

Estamos criando um novo modelo e por isso não existem respostas certas e erradas, mas é fundamental que o propósito e os princípios estejam claros para que os negócios sociais não sejam apenas negócios com estratégias inovadoras de geração de valor compartilhado e deixem de lado a intenção de redistribuir essa geração de valor visando a redução da pobreza e da desigualdade social.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Valor da Pesquisa para os Negócios Sociais


Como empreendedor fui sempre um pouco cético sobre o valor que pesquisas acadêmicas poderiam gerar para os negócios sociais, que são um fenômeno tão recente. No entanto, quando constatei que as políticas públicas e esses modelos de negócios não interagiam comecei a buscar pesquisas sobre negócios sociais que ajudassem a demonstrar o impacto desses negócios no desenvolvimento socio-econômico. Infelizmente, ainda existem poucos estudos científicos sobre o assunto, apenas as micro-finanças são uma exceção.

No caso das micro-finanças, que no meu ponto de vista, podem ser considerados modelos de negócio social na indústria bancaria, existem pesquisas pois as instituições micro-financeiras vêm sendo implementadas a mais de 30 anos. Mais recentemente, houveram discussões profundas sobre o impacto delas na redução da pobreza. Para quem quiser acompanhar os últimos debates, recomendo baixar este arquivo da Grameen Foundation (clique aqui). Neste artigo são apresentadas várias pesquisas, inclusive algumas de 2010 com teste de controle randômico que colocam em questão o grande impacto das micro-finanças.

Essas pesquisas ajudam a verificar o real impacto dos negócios sociais no desenvolvimento e começam a dar subsídios para uma classificação dos negócios sociais em relação ao impacto social gerado. Embora no caso do Brasil, a principal preocupação ainda deva ser a viabilidade financeira, já que a maioria dos modelos de negócios ainda não se mostraram viáveis. No limite, todas os negócios geram valor social e, portanto, mensurar e avaliar esse impacto é fundamental para dar credibilidade aos negócios sociais. Para serem classificados como tal, eles devem demonstrar que geram um impacto social maior que negócios convencionais.

Uma iniciativa que teria muito valor seria criar um núcleo de mensuração de impacto social para negócios sociais. Nas microfinanças já existem metodologias de ‘social performance measurement’ bem desenvolvidas, como pode ser verificado no site da Imp-Act - http://www2.ids.ac.uk/impact/. Para que essa iniciativa adquira reconhecimento ela precisa contar com rigor acadêmico e pessoas da área de negócios sociais que tornem as metodologias de pesquisa rigorosas e práticas, para não incorrer em mais atribuições para os negócios sociais.

Tenho conversado com pessoas da academia sobre este assunto para fomentar a criação desse centro de pesquisa. Isso pode não só ajudar os negócios sociais a identificarem seus pontos fortes e suas fraquezas, mas também dar subsídios para investidores ou mesmo formuladores de políticas públicas. O espectro de negócios sociais é bastante amplo, portanto é fundamental diferenciar os níveis de impacto desses negócios. Nas microfinanças essa diferenciação já está ocorrendo, pois algumas iniciativas têm demonstrado impacto relevante na redução da pobreza, enquanto outras se limitam a incluir pessoas no sistema financeiro. Os dois tipos de empreendimentos são relevantes, mas obviamente, o primeiro exige um foco muito maior em atividades de impacto social e costuma levar mais tempo para apresentar resultados. Já o segundo é muito mais rápido em ganho de escala, mas seu impacto na redução da pobreza é pouco expressivo.

Um fato que pode ajudar na evolução das pesquisas em negócios sociais é o lançamento do site NextBillion no Brasil amanhã, 17 de janeiro. Este site traz notícias, artigos e comentários sobre como os negócios sociais podem contribuir no desenvolvimento. Essa iniciativa se for bem utilizada permitirá que o Brasil comece a produzir conteúdo a partir das experiências vivenciadas no país e poderá intercambiar ideias com negócios em outros países, principalmente da América Latina, África e Ásia.